Relação entre educação e cultura de violência é discutida no curso ‘Filhos da violência no Sistema de Justiça’

Flávio Urra foi o expositor.

  

O tema “Reflexos da educação na manutenção de uma cultura da violência” foi debatido no último dia 28 na EPM no curso Filhos da violência no Sistema de Justiça, promovido em parceria com a Escola da Defensoria Pública do Estado de São Paulo (Edepe) e com a Escola Superior do Ministério Público do Estado de São Paulo (ESMP).

 

A exposição foi feita pelo psicólogo e sociólogo Flávio Urra e teve a participação da juíza Renata Mahalen da Silva, integrante da Coordenadoria da Mulher em Situação de Violência Doméstica e Familiar do Poder Judiciário do Estado de São Paulo (Comesp); e da promotora de Justiça Valéria Diez Scarance Fernandes, coordenadora do Núcleo de Gênero do MPSP.

 

Em sua palestra, Flávio Urra discorreu sobre estudos da infância, teorias de gênero e estudos das masculinidades.

 

A respeito do campo da infância, o expositor salientou a ideologia como maneira de manutenção da relação de dominação e como ela é propagada pelos meios de comunicação. Entre as formas de disseminação, observou que há muitas letras de músicas com conotação extremamente machista ou adultocêntrica, no caso da infância. Ele analisou discursos de pediatras das principais revistas de Pediatria no Brasil para avaliar o que pensam sobre questões como creche, mulher e infância, e constatou que a interpretação para a infância era o senso comum, sem estudos ou pesquisas. “É importante pensar como esses discursos mantêm e reproduzem o sistema de dominação existente em relação à infância. Existe uma desconexão: por um lado as crianças são supervalorizadas no nosso discurso comum, mas por outro lado nossas práticas são autoritárias e violentas”, observou.

 

O palestrante explicou que, enquanto o machismo é uma cultura de dominação dos homens sobre as mulheres, o adultocentrismo é uma cultura de dominação do adulto sobre a criança, que é vista como um ser incompleto, negativo, incapaz, incompetente, enquanto o adulto seria o inverso.

 

Ele ressaltou que a criança deve ser vista e tratada como ator social, agente do processo de socialização de adultos e de outras crianças, historicamente contextualizada, como centro das pesquisas, e não analisada em função do adulto que virá a ser. Ele recordou a normatização médica que foi trazida da Europa entre o final do século XIX e início do século XX, que recomendava determinadas práticas, como dar somente às meninas o estímulo de brincar com bonecas, que era negado aos meninos, assim como o direito de chorar, como se pudessem afetar sua futura masculinidade. E salientou o papel da Medicina como principal ator social na normatização das condutas das famílias, desde o fim do século XIX, lembrando que antes dessa intervenção da Medicina nas políticas públicas, a mortalidade infantil era muito alta: de dez crianças que nasciam uma se tornava adulta.

 

O expositor enfatizou que se encontra mais pobreza entre as crianças, lembrando que as pessoas idosas, apesar de terem uma série de restrições sociais, têm renda garantida com a aposentadoria. E observou que o valor investido em um adulto é muito maior do que em uma criança, citando pesquisa a respeito: “o Estado investe de 10 a 12 mil reais por ano, por pessoa, na pós-graduação, doutorado, enquanto a média investida em uma criança é de 400 reais por ano”.

 

Flávio Urra informou ainda que estudos sobre infância apontam que inicialmente há cooperação natural na infância e que a competição é estimulada depois pelos adultos. Ele observou que a violência acontece de homens para mulheres, de brancos para negros, de adultos para crianças, de filhos adultos para idosos. E esclareceu que a dominação ocorre quando um se apropria do poder do outro, relação que pode ser de uma pessoa ou de grupo sobre outro.

 

Ele acrescentou que o modelo de educação gera padrões de relacionamento abusivo e chamou a atenção para o isolamento da família, com grande número de pessoas que moram sozinhas, e para a lógica de se usar a violência para resolver todos os conflitos. Ponderou ainda que, por um lado há hiper erotização e por outro há sexofobia na sociedade, com a ideia do sexo como sendo perigoso ou ligado ao pecado, fazendo com que não se fale sobre sexo nas escolas ou na família de forma respeitosa. “Há necessidade de falar sobre a sexualidade de forma ligada ao afeto, ao amor, e não ao abuso”, asseverou.

 

Teorias de gênero

 

Em relação à teoria de gênero, o expositor reforçou que desde o nascimento o ser humano é construído em função de sua sexualidade, em função do órgão sexual. E discorreu acerca das diferenciações: brinquedos binormativos, coisas de homem versus coisas de mulher, quartos de menino, quartos de menina, azul/rosa. Ele apontou uma série de modelos que influenciam a constituição de masculino e feminino, desde histórias de monstros e de heróis, “que resolvem tudo sozinhos, dificilmente seguem a lei e têm uma capacidade maior do que os outros, relacionada à competição”. No caso das meninas, mencionou o modelo da mulher passiva, que aguardará ser salva pelo homem. “Mesmo as heroínas no final acabam precisando de um homem pra salvá-la. E tudo isso é difundido para a formação das crianças, quando nossa espécie, na verdade, só consegue sobreviver em sociedade, em cooperação”, ponderou.

 

Flávio Urra ressaltou que as brincadeiras infantis usualmente praticadas entre os meninos, como “polícia e ladrão”, repercutem negativamente em sua formação. E enfatizou que quanto mais se isolam os meninos das meninas, mais machismo eles aprendem. “Quando o menino tem muitas irmãs ou primas, que brincam de igual para igual, isso é aliviado, mas ainda assim, se ele entra num grupo de homens, precisa exercitar o machismo para ser respeitado. As meninas seguramos em casa, brincam de boneca, mas ainda hoje há o medo de que se o menino brincar de boneca se tornará homossexual, quando na verdade aprenderá a ser pai”, ressaltou. E ponderou que o homem acaba sendo preparado para exercer a violência, sendo proibido de ter afeto com outro homem, e até a prática sexual fica ligada à violência. “À medida que vai crescendo, esse homem vai se tornando violento, com uma sexualidade tóxica, e entra em uma série de comportamentos abusivos”, ponderou.

 

Quanto aos estudos sobre masculinidade, ressaltou os trabalhos realizados com homens para o desenvolvimento da masculinidade saudável, buscando conscientizá-los sobre a necessidade de abandonar práticas violentas e abusivas e eliminar o machismo. Ele discorreu a respeito de diversos programas e projetos, entre eles, o curso “Gênero e masculinidades”, realizado no Grande ABC, e o “Fórum de gênero e masculinidades”. Ele observou que o curso forma facilitadores para o programa “E agora José?”, realizado em Santo André, que recebe homens encaminhados pela Central de Penas e Medidas Alternativas, com penas de até dois anos de prisão, que precisam participar de 26 encontros.

 

O expositor observou que muitos homens chegam revoltados ao programa, sentindo-se injustiçados, porque não têm dimensão da violência que praticaram. Ele esclareceu que no programa se busca a conscientização, para que haja mudanças de comportamento e, em última análise, trabalha-se com a lógica de redução de danos: os homens saem de lá no mínimo com medo de serem presos, por verem que a Lei Maria da Penha está funcionando, e acabam divulgando a lei para os amigos.

 

Por fim, Flávio Urra salientou que é preciso ter respeito pelas crianças, tolerância pelos seus sentimentos e empatia e frisou a importância de os homens mudarem a maneira de se relacionar com as mulheres: “não dá mais para viver como eles viviam há cinquenta anos”.

 

RF (texto e fotos)